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13/08/2026

Profeta Elias: fé, força e transcendência representadas na arte sacra em mosaico

Ao longo da história do cristianismo, a arte sacra encontrou diferentes formas de representar personagens, acontecimentos e símbolos que fazem parte da tradição da fé. Entre essas linguagens, o mosaico ocupa um lugar especial: formado pela união de pequenas peças, ele transforma pedra, vidro, cerâmica e outros materiais em imagens que atravessam gerações.

Entre os personagens do Antigo Testamento que possuem uma forte presença na tradição cristã está o Profeta Elias, uma figura marcada pela coragem, pela defesa da fé e pela experiência do encontro com o divino.        

 

Sua história, registrada principalmente nos Livros dos Reis, atravessou séculos e encontrou na arte uma maneira de permanecer viva. Pinturas, esculturas, azulejos e mosaicos já representaram diferentes episódios de sua trajetória, especialmente sua ascensão aos céus em um carro de fogo.

Neste mosaico dedicado a Elias, a arte sacra encontra a tradição do mosaico para transformar uma história bíblica em uma imagem destinada à contemplação.


Quem foi o Profeta Elias?

Elias foi um dos grandes profetas do Antigo Testamento e viveu no Reino de Israel durante o século IX a.C., no período do reinado de Acabe.

Sua missão esteve profundamente relacionada à defesa da fé em Deus diante da expansão do culto a Baal. A narrativa bíblica apresenta Elias como um profeta de personalidade forte, cuja atuação buscava chamar o povo de Israel novamente à fidelidade à Aliança.

Entre os episódios mais conhecidos de sua vida está o confronto no Monte Carmelo, quando Elias desafia os profetas de Baal e pede que Deus manifeste seu poder. Segundo a narrativa bíblica, o fogo desce do céu, tornando-se um dos momentos mais marcantes da trajetória do profeta.

Sua história também é marcada por outros acontecimentos extraordinários, como a experiência junto à viúva de Sarepta e, principalmente, seu desaparecimento da terra de maneira singular.

No Segundo Livro dos Reis, Elias é levado aos céus em um carro de fogo, acompanhado por cavalos de fogo, enquanto seu discípulo Eliseu testemunha o acontecimento.

É justamente essa cena que se tornou uma das representações mais conhecidas do profeta na arte cristã.


Elias e a tradição da Ordem do Carmo

A figura de Elias possui uma importância especial para a tradição carmelita.

A Ordem do Carmo, surgida na Idade Média, passou a reconhecer Elias como uma de suas principais figuras espirituais e como referência de sua tradição. Embora a associação histórica entre o profeta bíblico e a origem institucional da Ordem tenha sido objeto de debates entre historiadores, sua presença na espiritualidade carmelita tornou-se extremamente significativa.

Essa relação também se manifesta na própria arte religiosa.

Igrejas e conventos ligados ao Carmo apresentam representações de episódios da vida de Elias, incluindo sua ascensão aos céus. Um estudo sobre a azulejaria da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Paraíba, por exemplo, analisa justamente painéis que representam passagens da vida do profeta e demonstra a importância de Elias dentro da cultura visual carmelita.

Assim, representar Elias em uma obra de arte sacra não significa apenas retratar um personagem bíblico. É também representar uma tradição espiritual construída ao longo de muitos séculos.

O Profeta Elias na arte cristã

A história de Elias possui uma característica que favoreceu sua representação artística: sua trajetória é repleta de imagens simbólicas.

O fogo, o céu, o Monte Carmelo, a nuvem, o manto e o carro de fogo são elementos que oferecem aos artistas possibilidades visuais muito ricas.

A ascensão de Elias, especialmente, aparece em diferentes períodos da história da arte cristã. Há registros antigos da representação do profeta sendo levado aos céus, incluindo uma representação em um sarcófago romano do século IV e outra nas portas da Basílica de Santa Sabina, em Roma, datada do século V.

A presença de Elias também pode ser encontrada na tradição dos mosaicos cristãos antigos.

Na arte bizantina, o profeta aparece, por exemplo, na representação da Transfiguração de Cristo, ao lado de Moisés. Um dos exemplos mais conhecidos está no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, onde Cristo aparece acompanhado por Moisés e Elias.

Essa presença é carregada de significado: Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas, testemunhando a manifestação da glória de Cristo.

Dessa maneira, a imagem de Elias passou a ocupar um espaço importante dentro do imaginário visual cristão.

 

Arte sacra em mosaico: imagens que atravessam gerações

O Profeta Elias continua sendo lembrado como símbolo de fé, coragem e fidelidade.

Sua presença na arte cristã demonstra como as histórias bíblicas podem permanecer vivas não apenas por meio dos textos, mas também através das imagens que as interpretam.

No mosaico, essa tradição ganha uma dimensão ainda mais particular.

Pedras, vidros, cerâmicas e outros materiais são transformados em uma imagem que pode ocupar uma igreja, uma capela, um espaço de oração ou uma coleção particular. Cada peça participa da construção de uma obra que busca unir beleza e significado.

Assim como acontece com os antigos mosaicos que ainda podem ser contemplados em igrejas e monumentos históricos, uma obra dedicada ao Profeta Elias pode ser pensada para ultrapassar o presente e permanecer como testemunho artístico e espiritual para as próximas gerações.
Confira o processo abaixo: 
 

 

 



 

Um dos grandes desafios da arte sacra é representar aquilo que, por sua própria natureza, não pode ser plenamente representado: Deus.

A tradição cristã afirma que Deus é espírito, eterno e transcendente. Diferentemente de Cristo, que pela Encarnação assumiu verdadeiramente a natureza e a aparência humanas, Deus Pai não possui um corpo físico que possa ser reproduzido como um retrato. As próprias Escrituras preservam esse mistério: “Ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1,18).

Ao longo da história da arte, entretanto, a necessidade de tornar compreensíveis as narrativas bíblicas levou os artistas a recorrerem a formas antropomórficas. A imagem do Ancião de Dias, descrita na visão do profeta Daniel, contribuiu para a consolidação da figura de Deus como um homem idoso, de cabelos e barba brancos. Durante o Renascimento, essa linguagem alcançou algumas de suas expressões mais monumentais.

Nesta representação do arrebatamento do profeta Elias, procurei seguir outro caminho.

Minha referência está na tradição do mosaico bizantino, na qual o ouro ultrapassa sua função ornamental. Os grandes fundos dourados das basílicas e igrejas bizantinas não pretendem reproduzir a cor de um céu real. Ao contrário: retiram a cena do espaço cotidiano e a inserem em uma dimensão que não está submetida às mesmas leis de tempo, matéria e luz do mundo terreno. O ouro torna-se linguagem do transcendente.

Partindo desse princípio, proponho uma inversão dessa tradição.

Se no mosaico bizantino o ouro frequentemente constitui o espaço transcendente que envolve a figura sagrada, nesta obra ele é deslocado para a própria manifestação da presença divina.

Não procuro, portanto, oferecer ao observador um retrato de Deus, nem afirmar que Deus possua uma determinada aparência humana. A forma figurativa permanece apenas como recurso de comunicação entre o visível e o invisível; sua materialidade, entretanto, é rompida pelo ouro.

O dourado não representa a carne de Deus. Representa sua manifestação.

A distinção torna-se ainda mais evidente pelo contraste com os demais elementos da composição. Elias possui corpo, vestes e peso. Os cavalos possuem anatomia. A carruagem ocupa o espaço. As nuvens delimitam a atmosfera da cena. Tudo aquilo que pertence à criação é apresentado por meio da matéria e da corporeidade.

A presença divina pertence a outra ordem.

O ouro introduz deliberadamente uma ruptura visual: aquilo que se manifesta diante de Elias possui forma suficiente para ser percebido, mas não matéria suficiente para ser confundido com um homem. A figura torna-se presença, luz, potência e transcendência.

Dessa maneira, uma característica ancestral do mosaico cristão é reinterpretada. O mesmo ouro que durante séculos retirou o espaço da realidade terrena passa aqui a retirar a manifestação divina da corporeidade humana.

A obra não pretende mostrar como Deus é.

Pretende tornar sensível a experiência humana diante de Deus que se manifesta.

E talvez resida justamente nesse limite uma das possibilidades mais profundas da arte sacra: não transformar o mistério em matéria, mas utilizar a matéria para conduzir o olhar até o mistério.

Leonardo Posenato
Arquiteto e Mosaicista